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Desde as savanas

Luis Fernando Verissimo

Uma das tantas teorias sobre o começo da civilização é a da angústia do pênis exposto. Quando os primeiros hominídeos desceram das árvores e foram viver na savana, uma das consequências de andarem eretos e terem que se espichar para pegar as frutas foi que seus órgãos sexuais ficaram expostos ao escrutínio. Antes de darem às fêmeas, ou aos mulherídeos, a chance de organizarem uma sociedade de acordo com o que viam e determinarem que os mais bem aparelhados teriam o poder – o que inviabilizaria qualquer tipo de hierarquia baseada na inteligência e, principalmente, na antiguidade, além de decretar o fim da linhagem dos pintos pequenos, que nunca se reproduziriam – os machos tomaram providências, começando a tapar suas vergonhas, coisa que nenhum outro animal tinha feito antes. A civilização, portanto, começou pelas calças. Ou o que quer que usassem nas savanas para tapar o sexo.

Tudo que veio depois – a linguagem, o fogo, a roda, a escrita, a agricultura, a indústria, a ciência, as nações, as guerras, todas as afirmações masculinas que independem do tamanho do pinto – foi, de um jeito ou de outro, uma extensão das primeiras calças. Um disfarce, um estratagema do macho para roubar da fêmea o seu papel natural na evolução da espécie ao escolher o reprodutor que lhe servia pelas suas credenciais mais evidentes e não pelas suas poses, peripécias e poemas. Toda a nossa cultura misógina vem do pavor de que a mulher retorne seu poder pré-histórico e, não sendo nem prostituta nem nossa santa mãe, queira tirar nossas calças.

A misoginia é um traço forte da tradição judaico-cristão. Nos espantamos com sua prevalência no mundo islâmico, mas ela também subsiste no inconsciente e nas artes do Ocidente, onde a mulher predadora sem nada que iniba sua ameaça à ordem masculina dominante é um terror recorrente, embora ai a burca seja só implícita. E o que eram a supervalorização da virgindade e a estigmatização do adultério que constavam dos costumes de tantas culturas diferentes (e que no Brasil eram lei até bem pouco tempo) senão formas de garantir que a mulher só descobriria o tamanho do pênis do marido quando não pudesse fazer mais nada a respeito?

A única defesa dos homens é que eles não estão sozinhos na vitimização das mulheres. A virgindade, por exemplo, é um tema para muitas divagações. Ninguém, que eu saiba, ainda examinou a fundo, sem trocadilho, todas as implicações do hímen, inclusive filosófica. Já vi o hímen – que, salvo grossa desinformação anatômica, não tem qualquer outra função biológica a não ser a de lacre – descrito como prova do moralismo do Universo. E, levando-se em conta a dor do defloramento e mais as agruras da ovulação e do parto em comparação com a vida sexual fácil e impune do homem, o Universo também seria misógino. Mas em comparação com o que a mulher sofreu, desde as savanas, num mundo dominado pelos homens e seus terrores, o que ela sofre com a Natureza é pinto. Com trocadilho.


Domingo, 16 de setembro de 2007.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.